21 de mar de 2014

Resenha: Dançando sobre Cacos de Vidro - Ka Hancock

Um livro tocante e triste, uma mistura de drama e sick-lit (livros de doenças). Escrito em uma linguagem fácil e envolvente, de narrativa intensa e suave, fala de superação, amor, família e morte, todos muito bem dosados pela autora.

Em seu livro de estreia, Ka Hancok (enfermeira) conseguiu reunir uma história comovente, bonita, delicada, triste e até mesmo cruel, ao mesmo tempo revelando um lado maduro, intenso e reflexivo, com muitas passagens marcantes e emocionantes. Talvez sejam esses os motivos que fizeram da narrativa um sucesso. 
"(...) Quem junta os pedaços quando você desmonta?"
Lucy Houston e Mickey Chandler são os protagonistas dessa história. Ela sofre de câncer. Ele tem transtorno bipolar. Eles se conhecem e se apaixonam e mesmo apesar de todos os empecilhos, da pouca fé de alguns depositada no relacionamento deles, Lucy nunca deixou de acreditar no amor que nutria por Mickey. Um amor inspirador, que supera todos os obstáculos para se tornar possível.

Lucy perdeu o pai, muito cedo, de forma trágica assassinado em um assalto, anos depois perdera a mãe vítima do câncer. Tanto ela quanto suas duas irmãs mais velhas herdaram o gene da doença.

Contrariando a família e amigos, Mickey e Lucy se casam mesmo sabendo das dificuldades e fardos que ambos carregam, mas movidos por um amor muito maior.
“Lucy me amava — mesmo com parafusos soltos, peças sobressalentes e partes danificadas. Ela amava o pacote todo — dizia que devia ser assim ou não faria sentido me amar. Jurou, faz uma eternidade, que isso era verdade e fez jus a esse juramento. Quem teria acreditado nisso?”
Para o casamento dar certo, no entanto, Mickey e Lucy impuseram regras, como: aceitar a doença de Mickey e entender que as variações de humor não são culpa dele e o principal: jamais ter filhos e passar a herança genética de suas doenças para eles. Por este motivo, aos 27 anos Lucy fez uma histerectomia. Quando completam 11 anos de casados, Lucy descobre que está grávida, mesmo contrariando todas as possibilidades.

E a partir desse momento, o livro segue um rumo impressionante. É comovente e ao mesmo tempo engrandecedor, acompanhar a luta de Lucy contra o câncer, e foi maravilhoso saber que ela não desistiu de sua filha. Como em qualquer relação, o casal têm altos e baixos, dias bons e dias ruins e alguns terríveis. 
“Nós dois iremos cometer erros, falou, mas ofereceremos equilíbrio um ao outro.” 
Adorei a forma como a autora intercala presente e passado. Embora o foco da trama esteja no presente, em vários momentos o leitor é levado ao passado, onde irá descobrir como Lucy conheceu Mickey, como se desenrolou o relacionamento dos dois, as dificuldades das respectivas doenças, os problemas enfrentados no casamento e com a família.

Lucy é extremamente dedicada às pessoas que ama, é uma mulher forte e cativante, não tem como não admirá-la, seja por suas atitudes ou por seus sentimentos. Mickey luta contra seus próprios demônios, seus problemas vão muito além de sua doença. O leitor vai perceber aos poucos o que Lucy enxergou através de toda disfunção de Mickey - um homem de bom coração, gentil, doce e apaixonado. O amor dos dois transcende a barreira do imaginário, a força que os une faz com que eles pareçam ser realmente certos um para o outro.

Mickey sofre com sua bipolaridade, mas nem por isso deixa de ser um esposo maravilhoso. Mesmo com toda a complicação de sua doença, continua sendo carinhoso e tenta agradá-la a todo o momento. Outras personagens também se destacam ao longo da narrativa, como as irmãs de Lucy e os médicos do casal, alguns por sua generosidade, outros pela devoção.

A autora nos esclarece com muita veracidade e realidade como é a vida de alguém que vive não só com uma doença debilitante, mas duas. Mostra com humanidade e honestidade todas as suas pretensões, não deixando o leitor na dúvida ou na omissão dos fatos.
”— Lucy, todo casamento é uma dança: complicada às vezes, maravilhosa em outras. Na maior parte do tempo não acontece nada de extraordinário. Com Mickey, porém, haverá momentos em que vocês dançarão sobre cacos de vidro. Haverá sofrimento. Nesse caso, ou você fugirá ou aguentará firme até o pior passar. - Interiorizei as palavras dele, enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto." 
O final não é imprevisível, no entanto Ka Hancock soube exatamente conduzir a história de forma a deixar o leitor sem saber se o esperado seria inesperado. Neste livro o leitor vai rir dos bons momentos, vai chorar pelo sofrimento das personagens e vai perceber como a vida é preciosa até os últimos segundos. É o tipo de história que faz você chorar (muito mesmo e muitas vezes) e também faz você parar para refletir...
"Acariciei o rosto de Mickey e pensei naquele dia, muitos anos antes, quando Gleason me falou como seria a nossa vida. Não demorou para que eu entendesse o que ele quisera dizer. Cacos de vidro. Nesse momento, estávamos descalços e dançando sobre um mar de cacos de vidro. Por mais verdadeiro que isso fosse, porém, Mickey sabia que eu dançaria com ele para sempre se pudesse, mesmo que meus pés sangrassem." 
Considero a leitura do livro obrigatória para quem gosta de uma história real e humana. Como eu esperava ao começar a leitura, Dançando sobre Cacos de Vidro é um livro lindo, intenso, com lições de vida importantíssimas e mensagens nem sempre positivas, porém tocantes. Foi uma leitura que mexeu profundamente comigo e deixou uma marca permanente.

Aprendi que o impossível não existe, que a fé move a vida, que tudo que acontece conosco tem um propósito e o quanto devemos valorizar a vida, o amor, a família e os amigos.

Por Bebendo Livros

5 comentários:

  1. Amei a sua resenha, fiquei super interessado em ler, vou baixar. Abç.

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    1. Com certeza não irá se arrepender Mauro. Obrigada pela visita!

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  2. Este eu já li e recomendo, é maravilhoso. Amei sua resenha, realmente excelente!

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    1. Obrigada Elisa! Eu confesso que amei esse livro, me prendeu do começo ao fim, o livro é tão bom que li em 2 dias... não conseguia parar.

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